Abyssus abyssum invocat
Talvez o ponto máximo dessa criação seja justamente o entendimento que para uma vida plena basta apenas aceitar que uma vida já é o suficiente.
Profissão de fé
O peso do crucificado é a medida do sofrimento por todos os seus pecados. Sentia o mundo se distanciar a cada conta rezada pelos seus. Pesava ele cerca de trinta talentos: o peso de Judas.
Três ceguinhas
Escuridão: escuro do escuro do escuro. Preto no preto no preto da etrinidade das turvasnegras seispupilas ocas pareadas para sempre. A pessoa é para aquilo que nasce.
31 de março de 2007
O Mito de Sísifo
"Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o topo de uma montanha, de onde a rocha cairia de volta, devido ao seu próprio peso. Eles pensaram, com uma certa razão, que não há castigo mais terrível do que um trabalho fútil e desesperado...
(...) Se este mito é trágico, é porque o herói é consciente. Qual seria tortura, de fato, se a cada passo a esperança de ter sucesso o sustentasse? O operário da atualidade trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e seu destino não é menos absurdo. Mas é trágico apenas nos raros momentos em que ele se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e rebelde, conhece toda a extensão da sua condição miserável; é nisso que ele pensa durante a descida. A lucidez que deveria constituir sua tortura é, ao mesmo tempo, a coroa da sua vitória. Não há destino que não possa ser vencido pela zombaria.
Se a descida é às vezes executada com tristeza, também pode acontecer em meio à alegria. Esta palavra não é excessiva. Novamente imagino Sísifo voltando para a sua rocha, e a tristeza foi no início. Quando as imagens da terra se apagam demais à memoria, quando o chamado da felicidade torna-se insistente demais, a melancolia se eleva no coração do homem; essa é a vitória da rocha, esta é a própria rocha. A tristeza ilimitada é pesada demais, insúportável. Estas são nossas noites no Getsêmane. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas. Assim, Édipo de início obedece ao destino sem conhecê-lo. Mas a partir do momento em que ele sabe, sua tragédia continua. Mas ao mesmo tempo, cego e desesperado, ele percebe que o único elo que o liga ao mundo é a mão suave de uma moça (Antígona, a filha e irmã de Édipo). Então uma frase tremenda é pronunciada: 'Apesar dos muitos sofrimentos, minha idade avançada e a nobreza da minha alma me fazem concluir que está tudo bem'.
...esta é a receita da vitória absurda. A antiga sabedoria confirma o moderno heroísmo.
Não descobrimos o absurdo sem sermos tentados a escrever um manual de felicidade. 'O quê! Por mais caminhos estreitos' - contudo, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. Eles são inseparáveis. Seria um erro dizer que a felicidade necessariamente surge da descoberta do absurdo; acontece também que o sentimento de absurdo brote da felicidade. ' Concluo que está tudo bem', diz`´Edipo, e esta frase é sagrada. Ela ecoa no universo selvagem e limitado do homem. Ela ensina que nem tudo está, nem esteve, esgotado. Ela tira deste mundo um deus que entrou nele com insatisfação e uma preferência por sofrimentos fúteis. Isto faz do destino uma questão humana, que deve ser definida entre os homens.
Toda a alegria silenciosa de Sísifo está contida aí. Seu destino pertence a ele. A sua rocha é coisa sua. Do mesmo modo, o homem absurdo, quando contempla seu tormento, silencia todos os ídolos. No universo subitamente restaurado ao seu silêncio, as mil vozes questionadoras da terra se erguem. Chamados inconscientes e secretos, convites de todas as faces, eles são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra, e é essencial conhecer a noite. O homem absurdo diz SIM e seu esforço será, a partir de então, incessante. Se há um destino pessoal, não há fado mais elevado, ou pelo menos só há um, mas um destino tal que ele conclui ser inevitável e desprezível. De resto, ele sabe que é mestre de seus dias. Naquele momento sutil, quando o homem olha para trás e vê sua vida. Sísifo retornando para sua rocha, naquela leve rotação, ele contempla aquela série de ações desconexas que se tornaram seu destino, criado por ele, combinado sob o olho sua memória e logo selado pela morte. Convencido assim da origem totalmente humana de tudo que é humano, um homem cego ansioso para saber que a noite não tem fim, ele ainda segue em frente. A rocha ainda está rolando.
Deixo Sísifo ao pé da montanha! Nós sempre encontramos novamente nosso fardo, mas Sísifo ensina a fidelidade mais alta que nega os deuses e ergue rochas. Ele também conclui que tudo está bem. O universo, doravante sem um mestre, não lhe parece fútil ou estéril. Cada átomo daquela rocha, cada floco mineral daquela montanha tomada pela noite, em si mesmo forma um mundo. A própria luta rumo às alturas é suficiente para preencher o coração de um homem. Devemos imaginar que Sísifo é feliz."
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