É tempo de mudanças, eu sei. Há tempos de paz e tempos de guerra; tempos do amor e tempos do ódio; tempos de se lembrar e tempos de se esquecer. Há ainda eu e os outros, que são partes de mim mesmo espalhadas em redemoinhos caleidoscópicos de possibilidades infinitas, de diferenças vertiginosamente abissais que na verdade só desembocam no único oceano profundo que reconheço: eu mesmo!
Sou tudo o que me importa, tudo o que realmente vale a pena porquê lutar, ao passo que os outros são existências absolutamente imprevisíveis e estranhas de um ser que só permanece o mesmo por puro capricho da integridade física dos corpos. Quem mais eu seria senão fosse o mesmo a cada instante, embora não sou mais do que amontoados de eus velhos a se despedaçar a cada respirar de cada novo instante? Quem seria senão reconhecesse em mim mesmo a promessa da eternidade ensimesmada? Os outros só existem porque neles reconheço a infinitude da existência em minha própria vida.
Alexandre disse certa vez que não acreditava em filósofo que não era sábio consigo mesmo, e nem eu acredito, ó incauto rei! Duvido das promessas soltas aos metros como se fossem cordas a empinar soberbas pipas ao sabor dos ventos tempestivos. Tão pouco eu, ó orgulhoso Alexandre, acredito em predileções dos deuses ou em adivinhações dos homens! Tão pouco eu, ó arrogante herói, creria que pudesse sobreviver mais a si mesmo num mundo tão curto quanto este! Para onde poderias ir tão longe para esquecer a si mesmo? Não cria em você mais do que você creria em mim se tivesse a honra de me conhecer! Mesmo assim, em ti percebi uma promessa silenciosa: o que esperar da eternidade senão o tédio!
A vida se renova porque ela precisa ser ela mesma. Eu sou o mesmo porque sou eu quem sou. Os outros são os outros porque neles há a ruptura da promessa da eterna manutenção do ser único: eu. A vida somente é sincera quando apenas esperamos algo advindo de nós mesmos. Que esperar do imprevisível além do imprevisto? Que esperar do outro além de interesses? Que esperar da eterna promessa de ser eu mesmo a cada instante além de ser apenas eu por todo o sempre? Quereria ser mais do que sou, mesmo que me custasse ser eu a me perder noutro eu.
* Texto de Roberto W.
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