E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Abyssus abyssum invocat
Talvez o ponto máximo dessa criação seja justamente o entendimento que para uma vida plena basta apenas aceitar que uma vida já é o suficiente.
Profissão de fé
O peso do crucificado é a medida do sofrimento por todos os seus pecados. Sentia o mundo se distanciar a cada conta rezada pelos seus. Pesava ele cerca de trinta talentos: o peso de Judas.
Três ceguinhas
Escuridão: escuro do escuro do escuro. Preto no preto no preto da etrinidade das turvasnegras seispupilas ocas pareadas para sempre. A pessoa é para aquilo que nasce.
28 de novembro de 2008
Para Pedrinho
Vinicius de Moraes
Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um
quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa
terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu
pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.
E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Da mesma forma que eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e
verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de
amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas
feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o
convívio criou nunca a ausência pôde destruir.
Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago
de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e
ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro
em que acreditei acima de tudo. E sendo que reconheço nos teus pés os pés do
menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as
grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as
queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em
ti a semente da morte criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em
cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo
esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço. Como as amplas
estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o
Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao
tenebroso Norte.
E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir
ao seu inesperado encontro.
Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar,
sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de
perder.
E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para
que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego,
mais vias.
Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me
abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela
abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém
tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho...
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