Abyssus abyssum invocat

Talvez o ponto máximo dessa criação seja justamente o entendimento que para uma vida plena basta apenas aceitar que uma vida já é o suficiente.

Abyssus abyssum invocat Abyssus abyssum invocat

Profissão de fé

O peso do crucificado é a medida do sofrimento por todos os seus pecados. Sentia o mundo se distanciar a cada conta rezada pelos seus. Pesava ele cerca de trinta talentos: o peso de Judas.

Profissão de fé Profissão de fé

Três ceguinhas

Escuridão: escuro do escuro do escuro. Preto no preto no preto da etrinidade das turvasnegras seispupilas ocas pareadas para sempre. A pessoa é para aquilo que nasce.

Três ceguinhas Três ceguinhas

ένδοξο θάνατο

Como gados aguardando o momento inclemente do abate estancamos no tempo, talvez esta seja a hora das nossas vidas, o ápice de nossos destinos mortais...

ένδοξο θάνατο ένδοξο θάνατο

Glamour

Da perdição da menina-moça ao claustro vazio da puta-velha, apenas a aceitação de um destino dominus.

Glamour Glamour

26 de novembro de 2008

Uma manhã qualquer


No instante que esta foto foi tirada me sentia tão pleno em mim mesmo! Lembro como se fosse hoje: o sol à pino sobre a minha cabeça raspada, minha velha sunga preta a me cobrir, o sutil som da arrebentação das marolas na mansidão da areia branca, o delicado silvo das borbulhas a se desfazerem junto aos sargaços flutuantes na beira-mar, minha visão desbotada perdida diante toda a imensidão do mar verde sem fim da minha terra.

Na manhã desse dia senti uma vontade tão profunda de ser mar que então mergulhei nas suas águas mornas e brinquei como a tempos não brincava - e fui mar pela primeira vez. Quis ser como o vento e fluir a esmo, sem direção, então desfiz-me num vazio tão cheio de beleza e flutuei por todo céu azul que se despontava ao largo, num horizonte tão perfeitamente deitado e infinito, numa paz tão profunda e sincera - e fui vento pela primeira vez também. 

Então percebi-me cercado de tudo e de todos, dos meus desejos e das minhas paixões, dos meus amigos e dos meus inimigos, todos eles ali, em todas as direções desse mundo a me induzirem numa ruptura cósmica caótica com a natureza. 

Compreendi pela primeira vez em minha vida a unicidade da criação na sua eterna preservação de si mesmo. Entendi que, de infinitas possibilidades, a criação seria eterna, mesmo que isso significasse a sua eterna destruição e a sua conseguinte eterna reconstrução. Que as verdades do todo sempre estariam a coexistirem entre si.

Diante dessa revelação entendi que o mundo, o cosmos, o todo, não começava em mim, e nem mesmo terminava em mim, mas que na verdade eu é que existia nele, e ele era eu também. Não persistia o eu em contraposição ao todo, pois na verdade eu somente poderia existir imerso em suas profundezas.

Já fui estrela e também planeta. (Sou estrela e também planeta). Nessa manhã, fui mar e também vento. Nessa eterna manhã a criação se manifestou eternamente em mim. 

E girei com o planeta, girei com a galáxia, girei com o universo, girei com as realidades infinitas da criação.

(e como girei!) 


* Texto de Roberto W.

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