Abyssus abyssum invocat

Talvez o ponto máximo dessa criação seja justamente o entendimento que para uma vida plena basta apenas aceitar que uma vida já é o suficiente.

Abyssus abyssum invocat Abyssus abyssum invocat

Profissão de fé

O peso do crucificado é a medida do sofrimento por todos os seus pecados. Sentia o mundo se distanciar a cada conta rezada pelos seus. Pesava ele cerca de trinta talentos: o peso de Judas.

Profissão de fé Profissão de fé

Três ceguinhas

Escuridão: escuro do escuro do escuro. Preto no preto no preto da etrinidade das turvasnegras seispupilas ocas pareadas para sempre. A pessoa é para aquilo que nasce.

Três ceguinhas Três ceguinhas

ένδοξο θάνατο

Como gados aguardando o momento inclemente do abate estancamos no tempo, talvez esta seja a hora das nossas vidas, o ápice de nossos destinos mortais...

ένδοξο θάνατο ένδοξο θάνατο

Glamour

Da perdição da menina-moça ao claustro vazio da puta-velha, apenas a aceitação de um destino dominus.

Glamour Glamour

25 de junho de 2009

Quando sangra o infinito


O primeiro "assassinato" entre os homens, um fato bíblico. Todavia se poderá afirmar, com a certeza necessária, que Caim tinha pleno conhecimento de que seu ato de violência resultaria no fim da existência física de seu irmão neste mundo? Será que Caim poderia ser condenado por matar Abel mesmo não havendo precedente para o caso? E quanto à repercussão moral do ocorrido, teria algum conhecimento ou opinião?

Não é Caim que me chama atenção ao fato trágico, mas a questão do clamor do sangue de Abel por justiça. Não é apenas Abel, e sua existência roubada, que suplica à Deus por justiça, mas todos os seus vindouros possíveis descendentes que tiveram uma possibilidade de existência negada; não é apenas o aspecto punitivo presente, configurado na morte de Abel que Deus pune, mas a aniquilação futura de uma série possível de vidas e suas inerentes repercussões na teia interligada do cosmos infinito.
Caim é culpado mais de uma vez num mesmo crime, em verdade, infinitas vezes. Essa é a marca indelével de uma culpa imensurável, a de negar a possibilidade à vida e suas consequências à outrem. Curiosamente Deus marca Caim para que não seja violentado em seu exílio, não para aumentar o tormento de um possível arrependimento do assassino nem tão pouco poupar terceiros de incorrer no mesmo crime que Caim cometeu, acredito que seja mais uma marca de remição em Caim por aquele que, no começo e no final das contas é sempre o responsável por tudo e por todos, ou seja, aquele que "verdadeiramente" é atingido pela morte de Abel e pela culpa de Caim: Deus.

De modo algum o Todo-Poderoso exime o criminoso do crime, mas por meio desse fato nos permite conhecer a trama complexa para o qual fiamos lentamente nossa tênue e aparentemente insignificante linha da vida. É nesse aspecto que ratifico o dito de "quem salva uma vida salva o mundo", e acrescento: quem a tira de outrem sangra o infinito.


* Texto de Roberto W.

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