Abyssus abyssum invocat

Talvez o ponto máximo dessa criação seja justamente o entendimento que para uma vida plena basta apenas aceitar que uma vida já é o suficiente.

Abyssus abyssum invocat Abyssus abyssum invocat

Profissão de fé

O peso do crucificado é a medida do sofrimento por todos os seus pecados. Sentia o mundo se distanciar a cada conta rezada pelos seus. Pesava ele cerca de trinta talentos: o peso de Judas.

Profissão de fé Profissão de fé

Três ceguinhas

Escuridão: escuro do escuro do escuro. Preto no preto no preto da etrinidade das turvasnegras seispupilas ocas pareadas para sempre. A pessoa é para aquilo que nasce.

Três ceguinhas Três ceguinhas

ένδοξο θάνατο

Como gados aguardando o momento inclemente do abate estancamos no tempo, talvez esta seja a hora das nossas vidas, o ápice de nossos destinos mortais...

ένδοξο θάνατο ένδοξο θάνατο

Glamour

Da perdição da menina-moça ao claustro vazio da puta-velha, apenas a aceitação de um destino dominus.

Glamour Glamour

13 de novembro de 2009

Fonte da vida


É chegada a hora derradeira do que já vivi até então; é chegada a hora primeira do que hei de viver doravante: quando tudo se desfaz em si mesmo, quando todos os tempos cessam e quando todas as montanhas desmoronam; quando eu voltei a ser nós, e nós a ser ele e ele voltou a ser eu.  Antes, desfiz-me em mil pedaços em busca da perfeição deles, mas logo me refiz com mil e um pedaços que nunca mais me foram familiar. Até este momento fui mais do que queria ser e bem menos do que pretendia: travei batalhas que não me interessavam enquanto lutava guerras que não entendia. Retive se não a essência ao menos as cinzas de todas as ilusões da minha efêmera vida: doces e amargas relembranças que um dia experimentei  honestamente acreditando  em se tratar de aspectos da minha verdade mais íntima, da comunhão mais perfeita que poderia haver entre mim e a realidade.


Quão iludido eu estava; quão preso estava nessa distorcida verdade que não pude perceber que em nenhum momento eu estava só, que em nenhum momento eu poderia reter o que não me pertencia. Todos os meus desejos e todas as minhas vontades um dia se chocaram nas muralhas impenetráveis do outro, esse ser paradoxalmente tão estranho e tão familiar. Foi assim: soltando as amarras das minhas ilusões e me permitindo ascender à inelutável unicidade da vida no reconhecimento que não sou apenas eu, mas uma série de eus a se integralizar num todo inevitável - nessa espiralada jornada cósmica que é a vida - que  finalmente me reencontrei naquele que eternamente me é tão familiar.

Assista The fountain (Fonte da vida), um filme de Darren Aronofsky, na qual me inspirei para escrever este pequeno texto. 

*   Texto de Roberto W.

2 comentários:

  1. Ilusões são realidades e sonhos vividas por apenas uma pessoa...
    Quem disse que não são verdadeiras?
    Ninguém que viva iludido ou de ilusões está fora da realidade, não da realidade da vida...
    Ao menos para uma pessoa, é real (pelo menos até que ela perceba a "realidade")
    O tempo que passou, passou... e foi real.
    É real.

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