Abyssus abyssum invocat
Talvez o ponto máximo dessa criação seja justamente o entendimento que para uma vida plena basta apenas aceitar que uma vida já é o suficiente.
Profissão de fé
O peso do crucificado é a medida do sofrimento por todos os seus pecados. Sentia o mundo se distanciar a cada conta rezada pelos seus. Pesava ele cerca de trinta talentos: o peso de Judas.
Três ceguinhas
Escuridão: escuro do escuro do escuro. Preto no preto no preto da etrinidade das turvasnegras seispupilas ocas pareadas para sempre. A pessoa é para aquilo que nasce.
18 de abril de 2010
Estou lendo: O dilema do onívoro
Em O dilema do onívoro, Michael Pollan vai a fundo, analisando a (agro)indústria do milho norte-americano, inclusive seus aspectos políticos e econômicos, o confinamento de animais, bovinos e outros, e seu abatimento para o consumo. Também expõe os alimentos “orgânicos”, mostrando como, salvo quando comprados diretamente do produtor, são grosseiras falsificações.
Desde sempre, a comida foi uma preocupação constante da humanidade. Da pré-história até a contemporaneidade, o problema mais constante foi ter o que comer! Muitos continuam a passar fome no presente. Mas, desde quando os homens se dividiram em pobres e ricos, enquanto os primeiros viveram - e vivem - a fome, os últimos passaram a comer já não para saciá-la, mas para agradar ao paladar e para ostentar opulência. Nos Estados Unidos, o dilema humano parece ter passado a ser: “O que vamos comer no jantar?”
Não vou regredir ao dealbar da humanidade, mas assim como os gregos tiveram os hedonistas e seus chefs, os romanos tiveram seus Lucullus e seus Apícios. Na Idade Média, a partir de Taillevent no século 14, sucedeu-se toda uma longa série de mestres cozinheiros. No século 19, quando a burguesia adotaria os hábitos da aristocracia, surgiria uma plêiade de cozinheiros, e tantos mais livros de receitas. Mas aí aparecem também os primeiros gordinhos e as dietas de emagrecimento. A Émile Zola foi recomendado que se abstivesse de líquidos uma hora antes e duas após as refeições. Se funcionou, não lembro! Sei apenas que o vinho lhe fez muita falta. De lá para cá, uns mais, outros menos, começaríamos todos nós burgueses a engordar. O trágico é que essa epidemia, como é sabido, partindo dos Estados Unidos, atingiria também os pobres.
Desde os anos 1930, começariam a se popularizar os livros com dietas e regimes para emagrecimento, em progressão quase exponencial. Nos Estados Unidos, o dr. Victor Lindlahr publicaria Eat & Reduce, logo traduzido para o português como Coma e Emagreça. Lindlahr abre o seu livro com uma simpática explicação sobre a diferença entre os alimentos anabólicos e os catabólicos. Os primeiros, como o pão, as massas, os açúcares e outros carboidratos são aqueles cuja digestão elege menos calorias do que eles produzem. Já a digestão dos alimentos catabólicos demanda mais calorias do que aquelas que eles fornecem para o nosso organismo. Donde, os primeiros engordam e os últimos emagrecem!
Daí em diante apareceria de tudo. Desde a dieta do dr. Atkins e de tantos outros doutores. Apareceram até dietas para evitar o câncer Calorias Não Engordam ou Coma Amendoim e Emagreça! Provavelmente, assim como as do dr. Lindlahr, excetuadas as charlatanices, todas essas dietas funcionam a curto prazo. O grande problema é que ninguém, salvo modelos anoréxicas, agüenta passar mais do que três ou quatro meses comendo apenas alfaces e outros capins ou se empanturrando com óleos e toucinhos. Afinal, somos onívoros!
É nesse contexto que Michel Pollan escreveu O Dilema do Onívoro, uma crítica bem fundamentada aos hábitos alimentares norte-americanos. Isso já havia sido feito de forma menos completa por Morgan Spurlock em seu filme Super Size Me - A Dieta do Palhaço (2004), que se concentrou na rede McDonald’s, mostrando como seus produtos incham. Mas Pollan, não obstante o bom humor, é mais completo.
A origem da obesidade americana decorre do fato de que um quinto das refeições do país são consumidas dentro de carros e um terço das suas crianças é alimentada a cada dia em redes de fast-food. Ao paradoxo da França, cuja população consome foie gras, queijos de toda ordem, manteiga, pão, massas e vinho e permanece magra e esguia, Pollan opõe o paradoxo norte-americano das dietas generalizadas e da obesidade epidêmica.
Ao contrário dos autores de best-sellers sobre dietas, Pollan vai a fundo, analisando a indústria do milho, inclusive seus aspectos políticos e econômicos, o confinamento de animais, bovinos e outros, e seu abatimento para o consumo. Também expõe os alimentos “orgânicos”, mostrando como, salvo quando comprados diretamente do produtor, são grosseiras falsificações. Assim também é com os alimentos “escuros” como o açúcar mascavo ou farinha de trigo integral. Com bom humor, este último modismo também é depenado!
A única fonte de vida sobre a terra é o Sol, cuja energia, por meio da fotossíntese, é absorvida pelos vegetais. Os animais comem os vegetais e assim estabelecem as cadeias alimentares. Desde o seu surgimento enquanto animais onívoros que são, os homens colheram e caçaram tudo quanto podiam. Há cerca de 10 mil anos, o homem aprenderia a plantar e a domesticar animais e, dali em diante, a produtividade aumentou. Com ela, foi aumentando o nível de vida. Desse ponto de vista, tudo ia bem para os homens até que, em meados do século 19, fosse desenvolvido o milho híbrido, o grande vilão, segundo Michael Pollan, que certamente convence qualquer leitor.
No final do século 18, o preço do milho baixou. Pôde passar a ser utilizado como ingrediente para a produção de uísque. O resultado foi o que o autor chamou de “a república alcoolizada”. Daí a Lei Seca!
¹ Michael Pollan é autor de quatro outros livros, entre os quais O Dilema do Omnívoro (publicado em Portugal pela Dom Quixote) e A Botânica do Desejo, ambos bestsellers do New York Times. Colaborador desde há muito tempo da New York Times Magazine, Pollan é também Knight Professor de Jornalismo na Universidade de Berkeley.
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