Época - Quem descobriu o Brasil foi Hong Bao. E o chinês Zheng He liderou a frota que mapeou o mundo 70 anos antes dos europeus. Essa é a tese de um novo estudo.
A cena está nos manu ais de escola. Navios a vela chegam de um lugar distante, lotados de marinheiros, cartógrafos e almirantes. A tripulação avista a terra e a frota atraca na praia selvagem. Os livros escolares contam que, assim, os descobridores espanhóis e portugueses conquistaram a glória de ter explorado e colonizado a América. E inauguraram uma nova era na história humana, com o planeta interligado. O marco da façanha foi 12 de outubro de 1492, quando o genovês Cristóvão Colombo aportou nas Bahamas - e recebeu o título de Descobridor da América. Os portugueses não ficaram atrás - Bartolomeu Dias foi o primeiro a dobrar o Cabo da Boa Esperança, em 1487. Dez anos depois, Fernão de Magalhães batizou com seu nome o estreito en tre a América do Sul e a Terra do Fogo. E Pedro Álvares Cabral achou nosso Brasil em 1500.
Só que todos esses heróis parecem estar com seus dias contados. De acordo com o cartógrafo e ex-oficial da Marinha Britânica Gavin Menzies¹, de 69 anos, é hora de fazer justiça. Quem des cobriu o Brasil, diz ele, foi um chinês chamado Hong Bao. Os navegadores europeus só chegaram à América e às outras terras porque traziam em suas pequenas caravelas cartas náuticas copiadas de um Mapa do Mundo chinês. Ali, o Estreito de Magalhães levava o nome de Rabo do Dragão, e duas ilhas - Antilia e Satanazes - reproduzem Porto Rico e Guadalupe. O mapa havia sido desenhado 70 anos antes. O livro de Menzies,
'1421 - O ano em que a China descobriu o mundo'(Bertrand Brasil), está fazendo barulho por trazer documentos que comprovam que os reais descobridores da América e do planeta foram navegantes e cartógrafos chineses, em expedições chefiadas por almirantes eu nucos. 'Os livros de História já estão sendo reescritos', diz Menzies.
A cena dos navios des bravadores deve conti nuar parecida nos novos manuais. A diferença é que as caravelas saem para dar lugar a navios de junco, monstros de 13 mastros, com 55 metros de altura e 146 de comprimento, cheios de marinheiros, concubinas, flora, fauna e armas de fogo. Ao lado deles, as naves européias pareceriam cascas de avelã boiando no oceano. Só o leme de um junco possuía 11 metros de altura, comprimento da Niíía, de Colombo. Para Menzies, a queda na visão eurocêntrica da História não vai parar aí.
O título de Descobridor da América deve ser atribuído a Zheng He', diz ele. 'Ele foi um exemplo de tolerân cia cultural e religiosa, que até hoje deve ser seguido'. Zheng He (1371-1433) lembra Colombo por ter sido protegido de um monarca, Zhu Di (1360-1424). Mas, diferentemente de Colombo, He era um eunuco muçul mano mongol, subserviente ao imperador chinês. Sua missão não consistia em conquistar territórios, pilhar e matar o gentio, como fizeram os europeus. O imperador Di, da dinastia Ming, sonhava em descobrir o mundo, mapeá-Io e converter nações 'bárbaras' em parceiras comerciais, em harmonia confuciana, com paz e tolerância. Na Idade Média, a China era a nação mais avançada do mundo.
Menzies descreve como He comandou a 'viagem dos tesouros'. A volta ao mundo durou 31 meses, entre março de 1421 e outubro de 1423. Quatro almirantes eunucos foram designados para percorrer o globo. Eram 130 navios, com cerca de 3 mil pessoas a bordo. O almirante Yang Qing ficou no Ocea no Índico, desenvolvendo o método para determinar a longitude (até então, os chineses só traçavam as lati tudes, a partir da observação das estrelas). Os demais ofi ciais cruzaram a costa sul da África na direção das 'terras escuras'. Zhou Wen zarpou rumo ao noroeste, em busca da mítica Terra de Tusang. Encontrou o Pólo Norte, a costa norte-americana, o Caribe, a Groenlândia e a Sibéria. Para o sul, navegaram Hong Bao e Zhou Man. Ambos aportaram na costa do Nordeste do Brasil em meados de 1421. Depois, Man atravessou o Pacífico, mapeou a região e descobriu a Austrália e a Nova Zelândia - 300 anos antes de James Cook. Bao avistou a Antártida. Seuscartógra fos mediram o Cruzeiro do Sul e estudaram o regime das correntes. No trajeto, as frotas recolhiam riquezas e vendiam porcelana, seda e plantas. Também fixavam colônias e ensinavam técni cas agricolas. Para Menzies, a contribuição maior da China foi a disseminação da agricultura. Ao chegar à América, os europeus não perceberam que os índios cultivavam plantas exóticas (coco e inhame) e criavam galinhas trazidas da China. Exames recentes de DNA sugerem o parentesco de indígenas brasileiros e mao ris com os chineses.
A maior parte dos navios de He naufragou. Destroços deles foram encontrados no Peru. De volta a Pequim, o que restou da frota não colheu glórias. Ao contrário. O imperador Zhu Di havia morrido. Seu filho, Gaozhi, ordenara o desmonte da in dústria naval e o fechamento das fronteiras. Influenciado pelos mandarins - burocra tas rivais dos eunucos, que eram militares -, Gaozhi eliminou a documentação so bre as expedições, inclusive o mapa-múndi, feito em 1428 pelos cartógrafos reais. Os anos de 1421 a 1423 foram designados pelos sábios oficiais como 'perdidos'. A China se isolaria por seis séculos. Algumas cartas náu ticas chinesas sobreviveram. Na tese de Menzies, o aven tureiro veneziano Niccolò Da Conti (c. 1395-1469) obteve o mapa dos chineses e o deu a Frei Mauro (c. 1385-1459), cartógrafo que elaborou o célebre mapa-múndi de 1459 - tido como fantasioso. Mauro trabalhava para o rei dom Pedro, irmão do infante dom Henrique, fundador da Escola de Sagres, celeiro das navegações portuguesas. O autor supõe que os portu gueses já tinham o mapa múndi copiado dos chineses quando embarcaram na conquista dos mares. E que Colombo lhes roubou uma cópia, com a ajuda de um marinheiro. 'Os euro peus só seguiram as façanhas dos almirantes cujos nomes os livros têm de registrar agora - Zheng He, Hong Bao, Zhou Man, Zhou Wen e Yang Qing', diz Menzies. Ele se diz realizado e lançou um site - www.1421.tv - para recolher dados novos, que chegam desde que lançou seu estudo em 2002. A eufo ria é maior na China. Para as Olimpíadas de 2008, o país vai inaugurar a réplica de uma das naus que cruzaram e mapearam a Terra - e ante ciparam a globalização.
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