Abyssus abyssum invocat

Talvez o ponto máximo dessa criação seja justamente o entendimento que para uma vida plena basta apenas aceitar que uma vida já é o suficiente.

Abyssus abyssum invocat Abyssus abyssum invocat

Profissão de fé

O peso do crucificado é a medida do sofrimento por todos os seus pecados. Sentia o mundo se distanciar a cada conta rezada pelos seus. Pesava ele cerca de trinta talentos: o peso de Judas.

Profissão de fé Profissão de fé

Três ceguinhas

Escuridão: escuro do escuro do escuro. Preto no preto no preto da etrinidade das turvasnegras seispupilas ocas pareadas para sempre. A pessoa é para aquilo que nasce.

Três ceguinhas Três ceguinhas

ένδοξο θάνατο

Como gados aguardando o momento inclemente do abate estancamos no tempo, talvez esta seja a hora das nossas vidas, o ápice de nossos destinos mortais...

ένδοξο θάνατο ένδοξο θάνατο

Glamour

Da perdição da menina-moça ao claustro vazio da puta-velha, apenas a aceitação de um destino dominus.

Glamour Glamour

16 de julho de 2010

Na roda de samba com Chico


Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião...o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração... Um paposamba com o Chico. Uma cervejinha bem gelada. Uma viola e um pandeiro. Conversando sobre a vida, o tempo e o destino.


Roberto - Tem dias que a gente se sente tão sozinho, sem ter onde se apoiar. Tem dias que a gente desejaria não ter nascido nesse mundo de tanta solidão e agonia. Numa angústia velada, numa angústia vazia, que de tão mesquinha e pequenina há de se ter vergonha até de se imaginar:como quem partiu ou morreu se pusesse a conjecturar: vale a pena, se tua alma, de tão miúda, se esmiúça num quê de destino desnecessário enquanto a gente estancou de repente numa parábola infinita de mesmices incontornáveis?

Chico - Ou foi o mundo então que cresceu, meu caro amigo, e você se perdeu no caminho?

Roberto - Sabe, Chico, a gente quer ter voz ativa, ter a capacidade de no nosso destino mandar; queremos ir em frente, sem medo do fim chegar. Quando imaginava a minha vida de agora, anos atrás, tudo seria tão diferente desse corpo que jaz: carnes flácidas numa tez plúmbea cobrindo encardida alma seria então uma maciça estátua bronzeada reluzentemente épica.

Chico - Sei, mas eis que chega a roda viva, esse fim anunciado mas nunca esperado, e carrega o destino prá lá, longe de todas as suas especulações mais esperançosas. Mas será que você tinha mesmo algum plano realmente sincero com suas vontades de então, Roberto ? Não seria apenas arremedos de vontades de vontades de vontades disfarçados? Logo, não seria o malfadado e incompleto hoje tão somente a ruína justa das máscaras tuas, agora desnecessárias? Ouça: roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião; o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração...

Roberto - A gente vai contra a corrente, Chico, até não poder resistir. Minha vida é a minha luta: creio que meu destino não é vencer, mas lutar: lançado num oceano de abismos sou o solitário passageiro de um minúsculo barco a desafiar sua imensidão insondável: em tempestades e trevas é que consigo ser quem sou: de um ausente passageiro torno-me no altivo capitão! É na necessidade que torno-me quem devo ser, é na adversidade que não mais encontro-me abandonado: a justa - e única - causa me absorve por completo, onde minhas palavras, pensamentos, atos e omissões são extensões inexoráveis de minha vontade de ser, de minha derradeira e mais linda luta: a vontade de viver!

Chico - Triste é o partir sem jamais chegar. Que tanto mar é esse que não há praias a abraçá-lo, que não há amantes a desfrutá-lo, que não há viúvas a amaldiçoá-lo? Que tanto mar é esse que só tem ida, que nunca se chega aonde se quer chegar? Luta sem propósito, vida sem profundidade, digo a você, meu querido amigo, que tudo isso é pouco demais para um homem, mesmo que só. Olha, Roberto, acredito que tudo o que vai um dia acaba voltando, e na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir de seu destino manifesto, este amargurado passageiro que fazes questão de sempre levá-lo consigo, esquecendo-o, convenientemente, à sua proa abandonada, e que, por isso mesmo, por vingança ou por vaidade, tanto o ilude com seus cantos vazios de tempos distantes e confusos, de uma vida antanho prometida.

Roberto - Chico: minha vida, minha roseira: quão belas as suas rosas e quão pontiagudos os seus espinhos: faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há - aguando sonhos e aparando pesadelos -, mas eis que chega a roda viva e carrega a roseira prá lá...

Chico - Cantemos, meu caro amigo, apenas cantemos...

Roberto e Chico - Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião; o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração...

Chico - Vai Roberto!

Roberto - A roda da saia mulata, não quer mais rodar não senhor; não posso fazer serenata, a roda de samba acabou...

Roberto - Você, Chico!

Chico - A gente toma a iniciativa, viola na rua a cantar, mas eis que chega a roda viva e carrega a viola prá lá...

Roberto - Juntos, Chico!

Chico e Roberto - Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião; o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração...

Chico - Agora termine o que começou...

Roberto - O samba, a viola, a roseira, que um dia a fogueira queimou: foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou...

Chico - Por fim, pegue aqui seu copo cheio e brindemos...


*   Texto de Roberto W. em cima da letra da música Roda Viva, de Chico Buarque.

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