O ônibus para. Um velho repulsivo
sobe com seus sacos imundos. O velho pede ao motorista que espere mais um
pouco. A mulher repulsiva, quase sem forças, se arrasta no ônibus com seu imundo
casaco negro de moletom. O motorista, o cobrador e os passageiros dignos -
todos eles - se indignam com a torpeza daquela trupe repulsiva. Finalmente, todos
nós vamos pros nossos destinos (sempre) sérios.
Mas eis o começar do espetáculo,
segundo o velho repulsivo:
- Irmãozinhos (e irmãzinhas) tão
dignos, perdoem-me por me dirigir a vossas senhorias tão augustas, antes de
tudo! Agora, antes de mais nada, já que o impróprio se fez notar, por mais insignificante
que vos pareçam, permitam-me contar as últimas desventuras dessa mais que
malfadada (e miserável) trupe:
[Vida Severina - a moer na usina o
amargor do fel; tornozelo partido - trator passou por cima; humilhação e
desespero - que mais pra um velho e pobre ignorante; coluna envergada - minha
idade se acusa a cada instante; miséria sem-fim – jogado na cidade grande.
Minhas dores são muitas, minha tristeza é maior ainda.]
- Doutores, sempre fui um homem
trabalhador, respeitador das coisas da lei e fiel companheiro. Mas a vida tem
lá seus desígnios, seus caprichos misteriosos... – Então, o homem se debulha em
copiosas e dolorosas lágrimas e, em meio aos soluços, abaixa a cabeça e dá repetidos
socos em seu cadavérico peito, murmurando: - ó meu paizinho, porquê de tanta
humilhação? - O desespero é sincero, reverbera em nossos altivos corações toda
aquela dor que de tão insuportável nos incomoda profundamente.
Como se estivesse num mundo à
parte, perdido num olhar vazio e opaco, o velho leva à boca seu punho cerrado,
como numa última tentativa de aguentar toda a sua agonia. A mulher, sempre cabisbaixa,
se apresenta murcha diante dos dizeres do velho homem: o que dizer quando não
se sabe usar devidamente as palavras e não se encontra dentre elas uma adequada
expressão do que se sente? A garganta é seca como pó; também as lágrimas há
muito secaram nessa peregrinação sem-fim, nessas andanças indigentes. Indulgência:
que pecados justificam tal miséria? Deus, para onde olhas?
Nesse dia, precisava de vários mil para pagar minhas contas, mas aquele
pobre homem precisava de uns poucos trocados para sobreviver mais um dia. O pouco
que ofereci era o muito que eles precisavam. Alguns o ajudaram, outros o ignoraram.
E chagara a sua parada, levando seus farrapos e seus sofrimentos desceram aos
trancos. Olhei o quanto pude para eles indo ao meio da multidão; trôpegas
criaturas desse Deus tão misterioso e distante. E nunca mais fui o mesmo: vi
uma dor que nunca, mesmo nos piores dos meus dias, senti na vida. Hoje tenho
vergonha de sofrer por tão pouco.
* Texto de Roberto W.
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