Abyssus abyssum invocat

Talvez o ponto máximo dessa criação seja justamente o entendimento que para uma vida plena basta apenas aceitar que uma vida já é o suficiente.

Abyssus abyssum invocat Abyssus abyssum invocat

Profissão de fé

O peso do crucificado é a medida do sofrimento por todos os seus pecados. Sentia o mundo se distanciar a cada conta rezada pelos seus. Pesava ele cerca de trinta talentos: o peso de Judas.

Profissão de fé Profissão de fé

Três ceguinhas

Escuridão: escuro do escuro do escuro. Preto no preto no preto da etrinidade das turvasnegras seispupilas ocas pareadas para sempre. A pessoa é para aquilo que nasce.

Três ceguinhas Três ceguinhas

ένδοξο θάνατο

Como gados aguardando o momento inclemente do abate estancamos no tempo, talvez esta seja a hora das nossas vidas, o ápice de nossos destinos mortais...

ένδοξο θάνατο ένδοξο θάνατο

Glamour

Da perdição da menina-moça ao claustro vazio da puta-velha, apenas a aceitação de um destino dominus.

Glamour Glamour

15 de janeiro de 2011

O sofrimento de cada um


O ônibus para. Um velho repulsivo sobe com seus sacos imundos. O velho pede ao motorista que espere mais um pouco. A mulher repulsiva, quase sem forças, se arrasta no ônibus com seu imundo casaco negro de moletom. O motorista, o cobrador e os passageiros dignos - todos eles - se indignam com a torpeza daquela trupe repulsiva. Finalmente, todos nós vamos pros nossos destinos (sempre) sérios.

Mas eis o começar do espetáculo, segundo o velho repulsivo:

- Irmãozinhos (e irmãzinhas) tão dignos, perdoem-me por me dirigir a vossas senhorias tão augustas, antes de tudo! Agora, antes de mais nada, já que o impróprio se fez notar, por mais insignificante que vos pareçam, permitam-me contar as últimas desventuras dessa mais que malfadada (e miserável) trupe:


[Vida Severina - a moer na usina o amargor do fel; tornozelo partido - trator passou por cima; humilhação e desespero - que mais pra um velho e pobre ignorante; coluna envergada - minha idade se acusa a cada instante; miséria sem-fim – jogado na cidade grande. Minhas dores são muitas, minha tristeza é maior ainda.]

- Doutores, sempre fui um homem trabalhador, respeitador das coisas da lei e fiel companheiro. Mas a vida tem lá seus desígnios, seus caprichos misteriosos... – Então, o homem se debulha em copiosas e dolorosas lágrimas e, em meio aos soluços, abaixa a cabeça e dá repetidos socos em seu cadavérico peito, murmurando: - ó meu paizinho, porquê de tanta humilhação? - O desespero é sincero, reverbera em nossos altivos corações toda aquela dor que de tão insuportável nos incomoda profundamente.

Como se estivesse num mundo à parte, perdido num olhar vazio e opaco, o velho leva à boca seu punho cerrado, como numa última tentativa de aguentar toda a sua agonia. A mulher, sempre cabisbaixa, se apresenta murcha diante dos dizeres do velho homem: o que dizer quando não se sabe usar devidamente as palavras e não se encontra dentre elas uma adequada expressão do que se sente? A garganta é seca como pó; também as lágrimas há muito secaram nessa peregrinação sem-fim, nessas andanças indigentes. Indulgência: que pecados justificam tal miséria? Deus, para onde olhas?

Nesse dia, precisava de vários mil para pagar minhas contas, mas aquele pobre homem precisava de uns poucos trocados para sobreviver mais um dia. O pouco que ofereci era o muito que eles precisavam. Alguns o ajudaram, outros o ignoraram. E chagara a sua parada, levando seus farrapos e seus sofrimentos desceram aos trancos. Olhei o quanto pude para eles indo ao meio da multidão; trôpegas criaturas desse Deus tão misterioso e distante. E nunca mais fui o mesmo: vi uma dor que nunca, mesmo nos piores dos meus dias, senti na vida. Hoje tenho vergonha de sofrer por tão pouco. 

* Texto de Roberto W.

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